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Processo de certificação. virtualidades e limites



O significado de um processo de certificação para uma produção como bordado não é claro para um grande número de pessoas. Na realidade trata-se aqui de transpor para produções artesanais conceitos já utilizados, com merecido sucesso, para produtos agro-alimentares.

A demarcação, nos finais do século XVIII, da Área Demarcada do Douro, tornou claro, desde então, a íntima relação entre um território e as propriedades e características dos produtos que aí se cultivam, que, sendo clara nas produções agro-alimentares, também existe noutras produções em que os saberes tradicionais e a especificidade de que se revestem os seus resultados num determinado local implicam a definição  de uma dada imagem a qual, a partir de aí, identifica o próprio local. É esta marca identitária que o conceito de certificação de um dado bordado pretende traduzir e salvaguardar.

Vem isto a propósito de algumas omissões que o presente trabalho conscientemente assume. É que, embora seja a realidade da produção do Bordado da Terra de Sousa o motivo que desencadeou a realização da exposição a que corresponde o presente catálogo, tal acontece no contexto mais restrito do processo de certificação em curso, para este bordado. Assim o estudo das suas características só contemplou aquele bordado passível de certificação, aquele bordado que se defina de um tal modo que o torne inconfundível perante outros, pois só o facto de ser único e singular o torna um possível objecto de certificação.

Significa isto que alguma produção de  bordado desta área, que não apresenta quaisquer especificidades que a possa singularizar (tais como pontos ou associações de pontos de bordar, materiais, cores, motivos) não pode ser considerado no âmbito do presente trabalho, situação que, se compreensível, incomoda, pois o mesmo é dizer, que algum do melhor trabalho que se faz na Terra de Sousa não pode ser aqui mostrado.

Os casos mais notórios dizem respeito ao trabalho que é feito com recurso ao ponto de cruz e ao ponto de Assis. Nalguns casos (não todos, infelizmente) tal injustiça dói particularmente pois as oficinas mais envolvidas na sua produção atingem uma extrema qualidade. Infelizmente, trata-se de bordado que não é passível de certificar pois, ainda por cima com a voga que actualmente conhece o ponto cruz, que é feito por todo o lado, torna-se ainda mais difícil evidenciar a específica ligação deste tipo de bordado a um determinado território. Por maioria de razões, torna-se impossível certificar um trabalho feito. em Portugal, com recurso a um ponto que até tem o nome da sua cidade de origem: Assis, na Itália.

Ao finalizar a apresentação do Bordado da Terra de Sousa tem-se perfeita consciência do carácter parcial e pragmático do trabalho aqui presente. Há que dizê-lo e assumi-lo com clareza. Seria verdadeiramente impossível, num projecto com estas características, fazer a arqueologia de todas as camadas depositadas ao longo de tantas décadas. Quer isto dizer que, num bordado produzido durante tanto tempo, se escolheram e se seleccionaram as produções que podem ter sentido servirem de base a um processo de certificação.

O desafio consiste agora em manter a contínua reinvenção característica deste bordado, conduzida a uma matriz que se tentou definir e apresentar.

Se tal acontecer, sabendo escolher uma ou outra característica que permita a um utilizador menos informado identificar o bordado, pelo sublinhar de expressões plásticas (como a variedade de crivos e dos pontos utilizados nos fundos, o uso de nozinhos e do sombreado, a presença dos canutilhos e das bainhas abertas sem esquecer os fabulosos pontos reais) ou pelo uso de um ou outro motivo muito próprio desta área, estar-se-á reforçar quer a qualidade, quer a definição da imagem de um bordado há demasiado tempo desconhecido.

Num mundo globalizado, em que tudo é igual em toda a parte, cada dia que passa, a diferença traduz a profunda necessidade de identidade e de ligação a territórios de afecto.


 
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