Casa do Risco

Situação Atual

Situação Atual

A bordadeira

A Bordadeira

As bordadeiras que fazem do Bordado de Terra de Sousa a maravilha que é, aprenderam a bordar bastante novas: entre os dez e os quinze anos foram quase 59%! E com menos de dez anos, 25,6%. Não surpreende, deste modo, que 72.5% do total tenha aprendido com alguém da sua própria família. O carácter doméstico e privado desta ocupação reforça-se ainda quando se sabe que outros 20% aprenderam com uma vizinha. Cruzando uma informação com outra percebe-se que, ainda na atualidade, só quem se iniciou no bordado depois dos 20 anos o fez segundo outras condicionantes, em que a família nem interveio nem foi decisiva. Todavia, já atinge 11% do universo das bordadeiras inquiridas aquelas que referem a frequência de uma ação de formação, ou seja, que reconhecem a vantagem de aperfeiçoarem os seus conhecimentos.

O início do bordar como atividade profissional fez-se para uma clara maioria (58,9%) entre os 10 e os 15 anos e, como é evidente, a bordar desde tão novas, compreende-se que quase 70% (65,8%) das atuais bordadeiras não tenha ultrapassado os quatro anos de escolaridade.

Há pouco mais de trinta anos considerava-se o exame da 4ª classe, como a passagem para uma precoce vida de trabalho e eram muitos e muitas, aqueles que, por uma total falta de condições sociais, não podiam progredir. Na altura já se considerava um grande progresso a frequência da escola que ainda na geração anterior deixava tantos de fora. No caso das bordadeiras o analfabetismo ainda atinge 7,5% do total.

Só uma pequena percentagem de bordadeiras - 12,7% - é capaz de riscar o seu bordado. De facto, a organização da atividade leva a que 85, 9% trabalhe por conta doutrem pelo que a regra é o tecido, cortado e riscado, chegar à bordadeira que só tem que o bordar com linhas entregues também pela empresa para quem trabalha.

Caracterizar as bordadeiras da Terra de Sousa através de elementos trabalhados estatisticamente, se traz consigo um acréscimo de rigor, exclui a possibilidade de transpor e dar a conhecer a realidade plural deste grupo de mulheres. E não há estatística possível que permita mencionar a sua generalizada simpatia e afabilidade ou que traduza a generosidade do seu sorriso.

O duro ofício de bordar submete estas mulheres a uma posição necessariamente contida onde só as suas mãos se afadigam na criação de insuperável beleza. Mas, no silêncio em que bordam, ritmado pelo pulsar dos seus corações, todos os seus sonhos se agigantam, voam e ganham asas.

Matérias-Primas

Matérias Primas

O Bordado da Terra de Sousa começou, naturalmente, por se fazer em tecidos considerados da mais alta qualidade, como é o caso do linho. Depois, também se começou a fazer noutros suportes têxteis, como panos em que o linho e o algodão se combinavam em diversas proporções.

Os tecidos atualmente utilizados são escolhidos em função do seu uso final. Assim, na execução de roupa de cama, como lençóis, a escolha recai quase inteiramente sobre o algodão. Não quer dizer que não se possam fazer lençóis de linho – que se fazem – mas aqueles tornam--se não só mais acessíveis no preço como, sobretudo, mais fáceis de manter, nomeadamente quando se trata de os passar a ferro, além de que o linho, com toda a sua extraordinária capacidade de absorção torna-se tão agradável no Verão, quanto desconfortável no Inverno.

Uma solução intermédia consiste na utilização de tecido de linho e algodão para a roupa de cama. Todavia todas as outras peças, que constituem o suporte da maior parte da produção de Bordado de Terra de Sousa, são feitas em linho. Tradicionalmente, é a Fábrica SAMPEDRO que constitui o grande fornecedor do linho, sobretudo aquele que é disponibilizado nas referências 4460 e 20 (este constitui um linho em que, num quadrado, o número dos fios da trama é igual aos da teia). Para o caso do algodão, a SAMPEDRO também é procurada, mas há quem lhe prefira a Companhia de Fiação de Torres Novas e, sobretudo, a do Lameirinho. Esta última fábrica é mesmo a mais citada, até porque apresenta maior variedade de misturas de algodão e linho. Evidentemente que outras fábricas são mencionadas quando se procura caracterizarem os tecidos de suporte, como por exemplo a LIBECO, que além de linho vende cambraia, ou a A. M. Rua que fornece organdi.

Enquanto o linho é usado em todo o tipo de roupa de mesa, cortinas e cortinados, os tecidos mais finos, como a cambraia ou o organdi, têm uma utilização muito mais residual. O primeiro destina-se a roupa de cama de bebé, que quase deixou de se fazer, e o organdi aparece em trabalhos de bordado de aplicação, como matéria-prima do que, localmente, se chama embutidos.

Num momento em que se trabalha, consistentemente, na valorização e na identificação deste bordado faz sentido questionar o tipo de tecido que deve ser utilizado, para que se não continue a dizer “vai-se o pano, fica o bordado”. Com efeito, considerando a multiplicidade de pontos da gramática técnica das bordadeiras, dever-se-ia investir na questão do tecido de um modo mais profissional e informado. Senão, repare-se: quando o bordado se executa numa toalha de mesa que vai ter, necessariamente, um bordado mais plano, eventualmente com mais bainhas abertas, ou crivos, deve-se utilizar um tecido onde os fios “corram” melhor, no sentido de facilitar o trabalho da bordadeira. Todavia, este tecido precisa de ter, simultaneamente, resistência  às lavagens. Por outro lado, um bordado onde predominem os chamados pontos reais, todos de grande relevo e complexidade, necessita de um tecido com uma especial resistência ao calor, pois se torna mais difícil de brunir. Há casos em que o apuro do desenho e consequente bordado exigem telas em que os fios da trama e da teia se distribuam de igual modo. É no entendimento de todos estes fatores que se deverá trabalhar na definição de telas adequadas às várias finalidades. Para um produto, cada vez mais luxuoso, devido à mão de obra especializada que incorpora - para não falar da excelência da sua qualidade ou da riqueza dos pontos que ostenta - a decisão do tecido a escolher não deve ser empiricamente informada, ao sabor da capacidade de persuasão dos representantes das fábricas ou baseada no hábito ou tradição, tal como atualmente se verifica.

O Bordado de Terra de Sousa apresenta-se, na maior parte das vezes, bordado a branco sobre branco porque, na altura em que se definiu, nem se imaginava que pudesse ser de outro modo. Todavia, este bordado, ao longo do tempo, incorporou todas as cores que estiveram na moda, sobretudo nos jogos de cama e toalhas de mesa. Contudo, o discurso sobre o valor patrimonial de elementos da cultura tradicional, desenvolvido e aprofundado ao longo dos últimos vinte anos, veio a originar um movimento de intenso revivalismo que, genericamente, veio trazer uma acrescida qualificação ao Bordado da Terra de Sousa. Com efeito, para além do regresso ao uso do linho, verificou-se o retorno a desenhos mais elaborados e bordados de modo mais exigente, com maior variedade de pontos, tornando ainda dominante o uso da paleta do bege, desde o branco e a pérola ao cru e cor de estopa.

A cor das linhas tem seguido esta moda e, nos nossos dias, borda-se sobretudo em branco ou pérola. Quer isto dizer que não existem quaisquer constrangimentos relativamente ao uso de outras cores, quer no tecido base, quer nas linhas do bordado, apesar da imagem atual, apoiada numa estética de carácter nostálgico e revivalista, privilegiar a paleta dos brancos e beges.

No que respeita às linhas há a considerar, para além da cor, outras características como o número de fios, a espessura ou a torção de cada um. Existem dois fornecedores a que todos recorrem: a COATS & CLARK e a D.M.C., correspondentes a duas grandes empresas centenárias.
A linha mais comummente usada talvez seja a “linha de um só fio”, na cor branca, correspondente, na COATS & CLARK à referência 4386 – nas espessuras nº16, a mais grossa, nº20, nº25, e na DMC à 107, nos números 16, 20, 25 e 30.

A linha “mouliné”, constituída por seis fios, é utilizada quer na cor branca, quer noutras, correspondendo-lhe na COATS & CLARK e a referência 4635 e na DMC a 117. Quando se pretende bordar a fio de linho a referência é a 4310 na COATS & CLARK, utilizada nos números 10 e 20. Para bordar a “seda”, na realidade viscose, seda artificial produzida a partir de celulose, quer a branco quer a cores, a referência é 4130, na COATS & CLARK, que na DMC equivale à referência 1008, mas neste caso a composição da linha é 100“rayon”.

A DMC disponibiliza fio metálico em dourado e prateado, com as referência 282 e 283, respetivamente, que suporta bem ser lavado e ser passado a ferro.

Já a referência 4445 traduz, na COATS & CLARK, a linha com o seu famoso brilho de pérola também conhecida por “perlé”, utilizada nas espessuras nº 4, nº6 e nº 12 enquanto na DMC aparece com a referência 116, utilizada nas espessuras números 5, 8 e 12.

Mercado

Mercado

Um dos aspetos mais interessantes na consideração da realidade da produção do Bordado da Terra de Sousa diz respeito ao modo como definiu um mercado que, muito rapidamente, teve uma expressão supra regional. Quando, nas últimas décadas do século XIX, se terá iniciado a produção deste bordado, tendo em vista a satisfação de necessidades exteriores às famílias que o produziam, ter-se-á colocado de imediato a questão do escoamento do produto. 
Não se sabe exatamente como tudo aconteceu. Imagina-se, sem dificuldade, que resolvidas encomendas de carácter mais local, as bordadeiras rapidamente se tivessem apercebido do potencial traduzido pelo tráfego da Estrada Real que, sublinhando a Portela da Lixa, corria do Porto em direção a Vila Real, a grande via de acesso rodoviário a Trás-os-Montes. Um pouco acima de Vila Cova, esta estrada cruzava com outro eixo viário de grande importância regional, a estrada que ligava Amarante a Guimarães e que, muitos séculos antes, integrava um dos Caminhos Portugueses de Santiago. 
O potencial locativo de Vila Cova da Lixa desde sempre fez a fortuna do lugar, onde o comércio já então apresentava grande expressão, dando-lhe mesmo, até há pouco menos de 30 anos, um carácter mais urbano que tinha então Felgueiras, a sede do concelho. É no aproveitar dos conhecimentos dos negociantes da Lixa e nas virtualidades trazidas pelo cruzamento de vias tão importantes, que se deve procurar o sucesso das empresas ligadas ao bordado. E, ainda nos nossos dias é visível a importância que pode ter a proximidade “à estrada”: não só garante o comércio de passagem, de impulso, como, sobretudo, funciona como uma montra e chamariz a uma escala muito superior: fica-se a saber que, ali, há quem venda bordado…

Por muito pobres que fossem todos aqueles lugares (e eram), por muito remotos que parecessem a um viajante mais urbano (e pareciam), por muito desconhecidas que fossem aquelas povoações (o que ainda hoje acontece), elas nunca estiveram à margem do mercado e os bordados, que sempre tiveram um carácter sumptuário e supérfluo, nunca foram produzidos para ali serem usados. Num primeiro momento terão sido escoados através de Guimarães, o grande centro nacional produtor de linho, mas rapidamente ganham um mercado mais vasto aproveitando todas as virtualidades do cruzamento daquelas vias. De facto, não é por acaso que sendo a origem Figueiró, os bordados tenham sido, no início, comercializados a partir da Lixa, acabando por ganhar esta denominação num processo semelhante ao que ocorreu com o Vinho do Porto, que nesta cidade é exportado sendo produzido bem longe. Também a sublinhar a importância das vias no acesso ao mercado está a própria área de ocorrência do bordado, que se difunde a partir da Estrada Real, com uma particular relevância e incidência nas freguesias que se localizam na bacia do Sousa.

Apesar das bordadeiras trabalharem, em larga medida, por conta de outrem, e ser a empresa que controla o processo de comercialização, a bordadeira faz uma ideia, ou julga fazer, aonde o seu trabalho vai parar. Com efeito, 86% das bordadeiras mencionam esses destinos, quando questionadas sobre dois momentos distintos: no início da sua profissão e na atualidade.

Apesar de variarem em termos relativos, o maior significado destes números diz respeito ao facto de estes centros locais estarem a perder importância como destino imediato na comercialização do bordado. Fazendo as contas, percebe-se que estes locais significam, atualmente, com 317 citações, cerca de 45 % do total, quando num período que se pode situar na década de 70, essas citações, 413, significavam mais de 58%, ou seja, a ligação aos mercados exteriores à região, faz-se cada vez mais diretamente. Este cuidado e investimento na procura de mercados mais longínquos não é recente, pois se encontrou uma referência de 1926 à Industria de D. Maria Rachel Medeiros Novaes, da Lixa-Douro a expor e vender, durante as Festas da Agonia, em Viana do Castelo, “um completo sortido em trabalhos de bordado fino, grosso e crivo” (14).

Contudo aquela pergunta, quando se colocou, pretendia avaliar as ligações funcionais ou de complementaridade com Guimarães, o que não veio a estabelecer-se deste modo, dado que aquelas já não existem na memória das atuais bordadeiras. Todavia, é ainda fácil encontrar bordadeiras de Airães, por exemplo, que bordavam, quase exclusivamente, Bordado de Guimarães: “Era todo feito aqui” afirmam convictas.

Também Maria Carolina Pinheiro, que dirige em parceria com um seu filho a empresa Terra-Mãe uma das mais antigas e importantes empresas de produção de bordado, sedeada na freguesia de S. Tiago de Figueiró, menciona a importância daquela ligação e, para o provar, basta aceder ao extraordinário arquivo de desenhos de Bordado de Guimarães ali existente, da autoria de seu pai, Domingos Pinheiro. Provavelmente, algumas das chaves essenciais ao entendimento das relações de complementaridade da área de bordado de Terra de Sousa com a de Guimarães, encontrar-se-ão nesta casa não sendo demais sublinhar que a sua intervenção lança toda uma nova luz no processo de definição e de promoção, tão à moda dos anos 30/40 do século XX, daquele bordado “regional”. Infelizmente a falta de outro tipo de documentos impede, por agora, de avançar mais do que o nome de quem os desenhou, filho de António Joaquim Pinheiro, avô de Maria Carolina e o fundador de uma das mais antigas empresas de bordados.

Do que não há dúvida é que o Norte, em geral, e o Porto, em particular, desde sempre foram importantes como área de escoamento. A este respeito, uma das histórias mais esclarecedoras que se colheu revelou como mulheres desta área, desciam a pé até à estação de caminho-de-ferro de Caíde e, chegadas ao Porto, continuavam até à Foz e Matosinhos para venderem bordados e colherem encomendas. Ana de Ascensão Vieira (1903-1988), de Trovoada, fazia-o, ainda antes de completar vinte anos. O comboio em Caíde e a “camionete da Serrinha e da Lixa” foram, claramente os veículos para a enorme difusão que este bordado, tão cedo adquiriu.

(14) In Aurora do Lima, 17 de Agosto de 1926, 3ª página, Viana do Castelo

Organização da Produção

Organização da produção

Desde logo um paradoxo: a importante produção de bordado que se verifica por toda a Portela da Lixa, e áreas confinantes, não é entendida localmente como algo que mereça algum destaque. Não se encontram postais, antigos ou modernos, com bordadeiras, não há monografias a cuidar do tema, muito menos se verifica a existência de qualquer sinal que celebre o bordado ou as suas cultoras: nome de uma praça, de uma avenida, uma estátua… Nesta aparente falta de visibilidade, no modo como tudo parece tão “natural”, encontram-se os sinais que denunciam a efetiva importância do bordado e o quão profundamente se insere nas estruturas sociais e económicas da área.

Efetivou-se, em novembro de 2005, um inquérito ao qual responderam 708 bordadeiras. Os seus resultados permitem objetivar o sistema produtivo do bordado de Terra de Sousa, caracterizando algumas das suas principais variáveis. Tendo-se feito um inquérito muito semelhante em 1995 estes resultados permitem ainda avaliar a evolução verificada nestes últimos dez anos.
Ao contrário do que muitos, exteriores à região, pensam, este bordado é feito em estruturas profissionais, empresas que, nalguns casos, podem ter a bordar para si quase 200 bordadeiras… A regra não será esta e, o número médio de bordadeiras por riscadeira ou contratadeira, nomes que por vezes designam as patroas andará pelas oito, existindo, como se imagina, todas as possíveis modulações: bordadeiras que trabalham sozinhas e vendem em feiras de artesanato ou são procuradas nas suas casas pelos clientes, bordadeiras que bordam para várias casas, bordadeiras que bordam apenas para uma única empresa.
De facto, o que o Inquérito de 2005 revela de mais espantoso é a constância da proporção de bordadeiras por conta própria e daquelas que bordam por conta d’outrem: 11,1% e 85,9%, respetivamente, havendo cerca de 3% de bordadeiras que não respondem à questão. Esta mesma razão revelou, em 1995, valores muito próximos, 10,2% e 82,9 % respetivamente. Igualmente significativa da constância do modelo de produção é a resposta que as inquiridas deram à pergunta sobre a dedicação em exclusividade ao bordado, pois cerca de 83% revelou que não tem nenhum outro emprego que não bordar (em 1995 a percentagem era um pouco mais elevada, de 89%). Com estes elementos não surpreende que 75% das inquiridas revelem que trabalham a tempo inteiro no bordado.
Caracteristicamente, a produção do Bordado da Terra de Sousa implica a existência de uma estrutura responsável pela compra dos materiais e definição do desenho. O desenho passa para o papel de um modo, estranhamente, pouco profissional, de um empirismo que, muitas vezes, é o responsável por alguma falta de qualidade. Aqui os desenhadores não são profissionais, no sentido de terem tido uma formação ou treino, específico e cuidado, na área do desenho, como acontece, por exemplo, na Madeira. Os desenhos, originais ou não, são passados a lápis para um papel vegetal. Este coloca-se sobre o tecido a riscar, com um papel químico por baixo e, ao riscar novamente o vegetal, por cima do desenho inicial, passa-se o desenho para o tecido. O papel vegetal com os desenhos, serve até que se rasga e degrada, não permitindo outras utilizações.
Como o papel químico existe em dimensões pouco apropriadas à totalidade dos padrões, muitas vezes o desenho é passado por partes para o tecido, originando pequenas distorções. Também a mão que decalca o desenho nem sempre tem a segurança necessária para riscar sem introduzir variações, ou seja, todo este processo, de um amadorismo confrangedor, é responsável por muita da má qualidade de algum bordado, pois que não há bordadeira que “salve” um mau desenho.
Foi a pensar neste conjunto de problemas que a Casa do Risco, ainda em 1997, investiu no desenvolvimento de um projeto que permitisse ultrapassar tais constrangimentos. Apesar de se conhecerem os excelentes resultados obtidos na Madeira, estava fora de questão copiar o processo que ali se utiliza: sobre folhas de papel vegetal para as quais se transpôs um desenho, pelo processo de uma micro-picotagem, passa-se uma “boneca” com um corante, o qual estampa no tecido aquele desenho previamente picotado. Reconhecendo-se a grande qualidade que traz para o Bordado da Madeira, trata-se de facto de uma tecnologia do século XIX, com os correspondentes custos de mão-de-obra, incomportáveis nos nossos dias, sobretudo quando já se está a produzir um produto que é, por natureza, muito caro. O bordado manual, será cada vez mais um produto de luxo, pelo que há que saber economizar em todas as operações que a sua produção implica exceto, evidentemente, o próprio bordado.
Se definir o problema não era difícil, mais complicado foi para a PRAT – Integração de Sistemas, Lda (sedeada no Porto, no centro de incubação de empresas NET- Novas Empresas e Tecnologias), encontrar uma solução que permitisse transferir desenhos para o tecido, com precisão, de modo a obter vários desenhos iguais. Tendo começado por pesquisar no mercado sistemas de risco para medidas até 2 metros, após análise cuidada foi escolhida, entre várias, a plotter da Lectra System. Analisado e compreendido o protocolo de comunicação com essa plotter, houve que escolher os formatos gráficos em que seriam trabalhados os desenhos dos bordados, recaindo a escolha no formato DXF, como formato intermédio entre os gerados pelas aplicações de desenho e o formato aceite pela plotter. Tal vem a implicar que os desenhos sejam feitos ou tratados em aplicações tipo Corel Draw, Autocad, ou outras, que possam gerar ficheiros DXF ou algo convertível em DXF. Chegados a este ponto, António Teixeira, da PRAT, desenvolveu em parceria com o Victor Augusto, da empresa NORCAM, um programa que lê o formato DXF e o converte no formato que a plotter “entende”.
Em linguagem mais acessível pode dizer-se que se encontrou uma máquina, a referida plotter, que risca diretamente o tecido, que pode ter até 2 metros de largura, mediante a sua ligação a um computador que possui as instruções de cada desenho.
Uma das grandes vantagens de todo este processo é que os desenhos não só se podem fazer com apoio informático, como se podem digitalizar, ou seja, desenhos que só existem em suporte de papel, podem ser lidos e armazenados no computador.
Tal significa a existência, extremamente acessível, de um arquivo de desenhos, e a facilidade de se manipularem e criarem novos motivos, bem como a possibilidade de recuperarem desenhos antigos digitalizando os próprios bordados, com essa acrescida vantagem de todos estes resultados poderem passar, rapidamente e com qualidade, diretamente para as peças a bordar.
A Casa do Risco foi pensada como uma estrutura que, entre outros serviços a prestar aos produtores de bordado, disponibilizaria este apoio na transposição do desenho para o tecido, o que tanto pode fazer a partir do desenho que um potencial cliente lhe apresente, como a seu pedido, desenvolver um novo desenho. A distância que vai das intenções às ações é, no entanto, maior do que por vezes se imagina. Contudo, grande que seja, não é intransponível.
De um modo geral, são os responsáveis pela empresa que riscam os tecidos e como na sua larga maioria se trata de mulheres, estas patroas são conhecidas por riscadeiras. As contratadeiras, uma designação que por vezes também lhes é aplicada preparam, assim, os tecidos, talhando-os e passando os desenhos.
Posteriormente cada obra irá ”correr” diversas bordadeiras, pois que uma prática ainda comum consiste em fracionar a própria execução do bordado – uma bordadeira faz os crivos, outra os pontos reais, outra as bainhas e assim por diante.
Se na origem poderá ter estado a preocupação de garantir a maior qualidade e rendimento, pois que se trata de tarefas diferentes e a mesma pessoa pode não garantir igual qualidade de execução, ou ainda, gostar menos do trabalho conforme se trata de um ponto ou outro, aquela prática acabou por ter o efeito perverso de, durante algum tempo, impedir a autonomização das bordadeiras que eram induzidas a aprender só uma parte das técnicas de bordar, perpetuando-se uma situação em que elas estariam sempre dependentes das patroas nas várias intermediações.
Com efeito, a contratadeira constitui um elemento que, da origem ao produto final, controla e domina todo o sistema pelo que, as bordadeiras não tinham, até há poucas décadas, qualquer hipótese de criarem o seu próprio mercado, devido ao seu conhecimento parcial do conjunto de tarefas a executar. Com a quantidade de cursos de Formação Profissional concretizados na região, com o apoio do Fundo Social Europeu, já não é tão decisivo este conhecimento fracionado da realidade do bordado, pois agora quem quiser aprende o que precisa. Tal não significa um caminho livre de escolhos para a bordadeira que se queira autonomizar: não tem capital para comprar matérias-primas nem para estar a trabalhar sem receber, tem problemas com o desenho e com o escoamento da produção, nomeadamente na ligação a mercados mais longínquos. Sendo estas dificuldades assaz significativas, há que acabar de uma vez por todas com o discurso que estigmatiza, de forma apressada e preconceituosa, a função do intermediário. É não só bom, como indispensável, que existam pessoas (como felizmente existem), com iniciativa para criar mercados e que, ao garantir o escoamento da produção, são os responsáveis pela própria sobrevivência da atividade. Os problemas que por vezes se verificam radicam no isolamento e desorganização das bordadeiras e na falta de clarificação de algumas das “regras do jogo”, sempre tão difíceis de estabelecer no seio de uma atividade que funciona, largamente, de um modo informal.
Já se viu como, em 1995, 89% das inquiridas não tinham qualquer outra atividade senão o bordado, contudo só 43% se lhe dedicava a tempo inteiro. Nos últimos dez anos, verifica-se o reforço do papel do bordado na economia das famílias pois embora a percentagem das que se dedicam ao bordado como única atividade tenha diminuído para 83%, torna-se muito significativo que a percentagem daquelas que se dedica ao bordado a tempo inteiro tenha subido para 75%. Ou seja, as bordadeiras não só tentam ter outras ocupações remuneradas, como dedicam mais do seu tempo à atividade de bordar, no que, certamente, a crise de emprego local joga um papel importante. No entanto, como já foi referido, mantém-se quase inalterada a proporção das bordadeiras a trabalharem por conta de outrem.

Utensílios

Utensílios

Num bordado, o essencial da sua definição tem a ver com os pontos que o concretizam num determinado desenho, motivo ou padrão. Todavia, na execução desses pontos podem verificar-se técnicas de diversa ordem, denunciando um maior ou menor profissionalismo, uma maior ou menor exigência.

Na generalidade, qualquer bordadeira borda, quase sempre, sem bastidor. Um bastidor é um auxiliar da técnica de bordar que pode assumir diversas formas. Os mais simples são constituídos por dois aros de madeira, quase do mesmo tamanho que, ao encaixarem um no outro, entalam o tecido. Ao manter o pano igualmente esticado em todas as direções, o uso do bastidor facilita o apuro do bordado, evitando as distorções e enrugamentos do tecido devido ao trabalhar dos pontos. Este bastidor, pequeno, fácil de arrumar e transportar, não se torna cómodo ou agradável de usar e, muitas das vezes, só se utiliza na execução de um particular ponto, mais exigente, e não de todo o bordado. Para facilitar o seu uso, há quem o prenda pressionando-o entre o peito e o rebordo de uma mesa, o que permite bordar com as duas mãos, uma colocada por cima, do lado direito do bordado e outra por baixo, pelo avesso. Todavia, a bordadora, assim que pode, abandona-o e recomeça a bordar com o tecido apoiado no dedo indicador da mão esquerda (no caso de ser dextra). O bordado executa-se então quase só com a mão que segura a agulha, onde se encontra a linha que está a ser usada. Já o Bordado de Castelo Branco, por exemplo, é feito num bastidor de outro tipo, mais profissional, que funciona como uma mesa retangular, onde o tampo é constituído pelo próprio tecido a bordar. Neste caso, dos bastidores de pé, a bordadeira fica com as duas mãos livres e não tem que ter uma postura rígida, pois o bastidor sustenta-se por si mesmo. O grande inconveniente deste utensílio é o espaço que exige e a dificuldade no seu transporte: não é nada que se pegue e se leve com facilidade de um local ou para outro, de uma divisão para outra.
Vem isto a propósito da engenhosidade das bordadeiras da Terra de Sousa. Só compreendendo o modo como se coloca o problema se pode valorizar devidamente a solução encontrada. É que estas bordadeiras bordam no papelão. É assim que toda a gente diz e é preciso ver para acreditar.
Há muito mais de cem anos, quando esta produção se terá iniciado, os bordados eram, não só extremamente elaborados, como se dirigiam a um mercado constituído por pessoas de uma enorme exigência. As senhoras que então compravam as peças bordadas eram, na sua generalidade, elas mesmas, embora amadoras, exímias bordadeiras, pois que nessa altura a educação das meninas pressupunha incontáveis horas a aprender a bordar. Quanto mais requintada e cuidada era a sua educação, mais percebiam e sabiam de bordado. Quando as bordadeiras da Terra de Sousa começaram a bordar para este mercado tiveram que resolver a questão da qualidade e apuro do seu trabalho. Se nunca tivessem aprendido a bordar corretamente, com um bastidor de pé, essa questão não se lhes colocaria, mas depois de bordar num, é difícil, senão impossível, bordar com a mesma qualidade, sem esse extraordinário apoio. Todavia, nas suas casas pequenas, sobrepovoadas de crianças, onde era preciso correr de janela a janela a aproveitar a luz do dia, com a multiplicidade de tarefas da sua vida doméstica, a necessidade de poder transportar o trabalho de um lado para o outro impunha-se e, com isso, a necessidade de transportar o próprio bastidor.
Nada se sabe de quem terá sido a gloriosa invenção hoje em uso. O que é certo que, mantendo as suas características, merecia e deveria ser melhorada. Imagine-se uma revista, ou um jornal dobrado em quatro. Fica-se com um a pequena superfície, de cerca de 20 centímetros por uns 30. Esta superfície, que apresenta alguma maleabilidade, mas não excessiva, é então forrada com o papelão propriamente dito, tradicionalmente o papel dos sacos de farinha, mais grosso que papel de embrulho normal mas que ainda se deixa atravessar por uma agulha. É nesta almofada, que não chega a ter a espessura de um dedo, que a bordadeira prega o serviço ou seja, cose o tecido já riscado ao papelão, definindo, com alinhavos, um círculo mais ou menos perfeito. Depois é só bordar, poisando o papelão em cima de uma mesa, ou ao colo, no caso de estar sentada baixa. E a bordadeira borda. E borda muito. E borda muito bem, com as duas mãos pelo direito do tecido: a mão esquerda (no caso de ser dextra) segura a linha, o que levanta ligeiramente o tecido favorecendo a execução dos pontos com a mão direita. O bordado assim executado nunca fica arrepiado, com gelhas e a tensão dos pontos regula-se melhor sem provocar distorções e favorecendo um bom resultado final.
Esta técnica do papelão é a grande responsável pela permanência e uso de tantos e tão variados pontos no maior centro produtor de bordado de Portugal Continental, muitos deles especialmente difíceis de fazer e que, em todos os outros locais, foram abandonados pelos problemas levantados pela sua execução. Foi o papelão que permitiu a conservação de um completíssimo vocabulário técnico mantendo em uso essa enorme variedade de pontos, o que confere a este centro produtor a sua principal característica identitária, não igualada por nenhum outro.

Boletim Municipal #11 2017
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